Uma reflexão sobre tecnologia, responsabilidade e o valor insubstituível do conhecimento humano.
“A IA pode produzir. Mas é o conhecimento humano que avalia se aquilo faz sentido.”
É impressionante como nós, seres humanos, perdemos facilmente o brilho de nossos propósitos diante de algo novo, promissor e aparentemente mais fácil.
Vimos o boom da inteligência artificial. E, com ele, pessoas e empresas de todos os setores começaram a usar — e, em muitos casos, abusar — da tecnologia sem critérios, sem conhecimento e sem a devida supervisão.
Hoje, vemos pessoas e empresas tentando substituir profissionais de diferentes áreas por agentes de IA. Vejam: não sou contra. Ao contrário, sou apaixonada pela inteligência artificial e por todas as possibilidades que ela nos oferece.
Mas vejo cada coisa por aí…
Outro dia, vi um criativo que comunicava um velório. No topo da peça, estava a chamada: “Venha comemorar a Páscoa”. Logo abaixo, apareciam a foto da pessoa, os horários e as informações sobre o velório e o sepultamento.
Parece absurdo, mas aconteceu.
E esse não é um caso isolado. Vemos peças publicitárias, documentos, processos e comunicações institucionais com erros gritantes, informações desconectadas e conteúdos que, embora visualmente bonitos, simplesmente não comunicam.
A velocidade não substitui conhecimento
Pouco se fala, também, sobre o custo de sustentar toda essa estrutura tecnológica. Não se trata apenas da demanda, mas dos recursos computacionais, energéticos e humanos necessários para manter sistemas cada vez mais complexos funcionando.
Quando empresas reduzem equipes acreditando que a IA substituirá integralmente o trabalho humano, o retrabalho, os erros, a ausência de visão estratégica e a perda de qualidade também passam a fazer parte da conta.
Em muitos casos, reconstruir processos, reativar equipes e recuperar a credibilidade pode sair muito mais caro do que manter profissionais qualificados trabalhando em conjunto com a tecnologia.
Eu realmente acredito que ainda vamos avançar muito com a inteligência artificial. Mas, para isso, é necessário conhecimento.
É preciso saber o que pedir, como pedir, o que analisar e, principalmente, quando não aceitar o que a ferramenta entrega.
Uma arte bonita, cheia de informações e produzida em poucos segundos não transforma ninguém em designer. Assim como um texto aparentemente bem escrito não transforma alguém em jornalista, publicitário, advogado, professor ou especialista em determinada área.
A IA pode produzir. Mas é o conhecimento humano que avalia se aquilo faz sentido.
Quando a ferramenta passa a assumir responsabilidades
Tenho visto empresas e profissionais enfrentarem situações constrangedoras por colocarem nas mãos da inteligência artificial toda a responsabilidade de comunicar, direcionar e executar.
Sem revisão. Sem estratégia. Sem alguém que conheça profundamente a área. Sem qualquer critério de qualidade.
A inteligência artificial é uma ferramenta maravilhosa. Pode ampliar resultados, otimizar processos, acelerar pesquisas e abrir possibilidades extraordinárias. Mas também pode levar uma empresa ao erro, ao constrangimento e à perda de credibilidade quando utilizada como um atalho para substituir conhecimento, experiência e responsabilidade profissional.
Uma experiência que merece reflexão
Essa reflexão me fez lembrar de uma situação envolvendo o presidente de uma empresa.
Ele começou a utilizar a IA para produzir criativos e passou a encaminhá-los para a equipe de Comunicação e Marketing, afirmando que os materiais estavam muito melhores e eram produzidos muito mais rapidamente.
De fato, as peças eram visualmente bonitas.
Mas também eram carregadas de informações, pouco estratégicas e não comunicavam tão bem quanto ele imaginava. Além disso, apresentavam erros de português bastante evidentes.
Com o tempo, isso começou a gerar críticas e afetar a imagem da empresa. Ficou perceptível, para quem acompanhava aquela comunicação, que havia ocorrido uma queda na qualidade.
A mensagem transmitida era perigosa: a de que o mais importante era produzir rápido, gastar menos e entregar algo aparentemente bonito — ainda que o conteúdo não cumprisse sua função.
A situação chegou ao ponto de um professor renomado de uma universidade fazer observações públicas e bastante claras sobre os erros apresentados.
Diante disso, o presidente recuou. Pediu desculpas à equipe e reconheceu:
“É muito interessante essa parte de criação com a IA, mas entendi que é preciso dominar o assunto. Para criar, é necessário muito mais do que apenas dizer a uma ferramenta o que fazer.”
E esse reconhecimento revela algo importante: a IA não diminui a necessidade de profissionais qualificados.
Ela aumenta essa necessidade.
Quanto mais poderosa se torna a ferramenta, maior deve ser a responsabilidade de quem a utiliza.
Use, mas saiba usar
Use a inteligência artificial, mas saiba usá-la.
Não tome decisões baseadas apenas em dinheiro, velocidade ou em uma falsa sensação de economia. Continue tomando decisões com base em fatos, dados, estratégia e conhecimento, para não se arrepender depois.
Porque o problema nunca foi a tecnologia.
O problema está na forma como decidimos utilizá-la.
E é preciso cuidado para que aquilo que parecia ser a salvação do navio não se torne justamente o que poderá afundá-lo.




